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ARTIGO - Eliseth Cardoso, Sílvio Caldas, Roberto Carlos e a Jovem Guarda. Hebe, Mazzaropi e Chatô. Memórias...

  • Foto do escritor: Cefas Alves Meira
    Cefas Alves Meira
  • 22 de set.
  • 7 min de leitura

                                                      Hamilton Gangana*   

 

 

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Ainda jovem, aprendi a admirar a voz privilegiada, a interpretação impecável, o repertório refinado e a postura elegante de Eliseth Cardoso (1920-1990) - a divina. Comprava e curtia os discos dela. Fui assisti-la no modesto Teatro da Imprensa Oficial em um show inesquecível, com o Zimbo Trio, Jacob do Bandolim e Época de Ouro registrado no LP “Eliseth Cardoso” (MIS, 1968) e em CD duplo (Biscoito Fino, 2003), marcando a excursão histórica por vários países da Europa. Eliseth foi a primeira cantora popular brasileira a se apresentar e encantar a plateia do Teatro João Caetano (RJ). A grande artista cumpriu uma série de audições na extinta TV Itacolomi, em BH, quando tive o privilégio de assistir aos ensaios, sozinho, admirando-a de perto no auditório da rádio Guarani onde eu trabalhava.

 

Espontânea, divertida, distribuindo simpatia e exalando um perfume sensual, eu a via antes e depois assistia o programa. Logo em seguida, uma grata surpresa, para espanto meu e dos companheiros Orlando, Huáscar e Tião Nunes. Nós a vimos no salão de café da manhã no Hotel Normandie em São Paulo, onde participamos de um congresso de propaganda. A cantora me reconheceu e esboçou um leve sorriso. Num triz, pensei: “É hoje!”! Logo apareceu a figura elegante, boa pinta, terno de linho branco, com afagos e beijos carinhosos. O felizardo era o maestro, compositor e multi-instrumentista Moacir Santos (1926-2006). Só restou-me memorizar, para sempre, aquele raro momento que marcou um sonho impossível com a enluarada Eliseth.

 

Pouco lembrado pelo show business, numa jogada de mestre, o cantor Sílvio Caldas anunciou, aos quatro ventos, que sairia de circulação. “Vou parar, não dá mais. Essa garotada aí tomou conta, agora só dá Rock and Roll, Bossa Nova e Jovem Guarda”! Virou assunto nacional. Foi montada uma peregrinação de despedida do seresteiro pelo Brasil afora e a Philco e Ingleza Levy patrocinaram a “Despedida de Sílvio Caldas” em BH, na TV Itacolomi. “O adeus de Minas ao caboclinho querido” foi o mote que tomou conta das manchetes na tv, no rádio, nos jornais e nas conversas do povo nas esquinas.

 

Em meio à enorme expectativa aconteceu o imprevisível: Sílvio Caldas não apareceu e nem explicou o motivo. Marcada nova data, o nosso personagem faltou novamente e a decepção virou um mimimi sem tamanho. Na terceira tentativa, aí sim, ele desceu às 11 horas da manhã de uma sexta-feira, dia da apresentação, no aeroporto da Pampulha. Fui escalado pela agência Starlight Propaganda para conhecer e anotar os detalhes do programa, no hotel Ambassy, centro de BH. “O doutor Sílvio Caldas não autorizou ninguém a subir, ele está descansando!”, anotou o recepcionista do hotel. Sentei e permaneci aguardando as ordens do ilustre hóspede.

 

Recebi inúmeros telefonemas, da agência, da direção da tv Itacolomi e do cenógrafo Gerson Caetano, todos aflitos, cobrando informações. As chamadas do evento se repetiam na tela da tv, mas ninguém conhecia o script, como seria a apresentação. Eram 3h da tarde, quando fui recebido pelo cantor, enrolado em uma toalha de banho, em meio à fumaça de chuveiro, se enxugando, se perfumando, se vestindo, se penteando e falando sem parar. Falei sobre a grande expectativa, quem era o patrocinador local e pedi as coordenadas para que produção pudesse montar o enredo da super apresentação, ansiosamente aguardada. 

 

“Esse Levy que você falou aí deve ser um judeuzinho muito rico, né! Menino, eu sou o Sílvio Caldas, o maior cantor do Brasil. Olha esse violão, leia essa plaquinha de ouro com dedicatória” - Eu li: “Ao seresteiro do Brasil, com o abraço do JK. Juscelino Kubitscheck  de Oliveira”. Sou o Sílvio Caldas! “E as mineirinhas, continuam lindas e gostosas? Adoro isso aqui. Olha, quero comer uma comidinha mineira no jeito, tô cansado de comida de avião e de hotel. Sabe algum lugar bom pra comer a essa hora?  Gosto muito da comida daqui. Onde vai me levar?”.

 

Calça branca de linho, sapatos brancos com discretos detalhes rosa, camisa de seda rosa suave, cabelos brancos encorpados e bem cuidados, pele bronzeada, óculos de sol estiloso. Saímos caminhando em direção ao restaurante Rosário, na avenida Paraná. Aproveitei para lembrar que estávamos muito atrasados, o pessoal da Itacolomi desesperado, sem saber o que fazer e já eram 4h da tarde! “Menino, sou o Sílvio Caldas, não preciso de nada”! Silêncio de uns 30 segundos.

 

“Quero um cenário de favela, natural, com luzes piscando, um banco simples e mais nada. Ah! Meu prefixo, aquele que todos  conhecem… (e solfeja): “Lá,lá,lá,lá, lá ri…Lá,lá,lá,lá ri…Dorme fecha esse olhar entardecente…” É essa a música. O resto deixa comigo, sou o Sílvio Caldas.    (Serenata” de Sílvio Caldas e Orestes Barbosa, Colúmbia, 1934).

 

O restaurante Rosário encontrava-se vazio àquela altura, mas a sorte nos premiou. Quem estava lá papeando com um amigo e tomando algumas? Simplesmente o compositor Rômulo Paes. Foi um auê. Rômulo botou as mãos pra cima e sacou: “Quem estou vendo? Sílvio! Quê que isso, compadre!” Um longo abraço selou a bela surpresa e o uísque começou a rolar. Rômulo chamou o parceiro Henrique de Almeida e outros, o restaurante ficou repleto de amigos e curiosos. Passei rapidamente as notícias para alívio do pessoal da Itacolomi, mas era muito forte a preocupação com o compromisso, a hora e com o álcool.

 

Eu tinha que monitorar o artista indomável para honrar o “respeito e o compromisso com o telespectador”, forte recomendação da direção da Tv Itacolomi, preocupadíssima, após tanta incerteza e sufoco. Já havia dezenas de fãs na porta da televisão, com longplays nas mãos, para os autógrafos. E o medo de Sílvio Caldas não chegar bem aos estúdios, com a devida antecedência e preparado, foi algo muito enfatizado pela equipe de produção. A audição ganhou uma abertura sóbria com texto curto narrado em off sobre um mosaico de fotos e os acordes de “Serenata” em background.

 

Sílvio abriu o programa sem pronunciar uma palavra sequer e cantou cinco músicas em sequência.. Cumprimentos rápidos e mais cinco números. Outra série, um comentário sobre a bela capital dos mineiros, mais uma seleção de músicas, os agradecimentos em alto estilo com “Chão de Estrelas”, o clássico de sua autoria e da carreira. Com muita serenidade, o cantor brilhou e mostrou porque era o Sílvio Caldas.

 

O programa transcorreu tecnicamente perfeito, sem apresentar qualquer atropelo. O caboclinho querido confirmou a sua categoria de profissional consagrado e seguro. A surpresa ficou por conta de seus amigos, capitaneados por Rômulo Paes, que o levaram em caravana para a Gruta Metrópole, tradicional reduto da boemia. De portas cerradas, a Gruta comemorou a noite inteira a anunciada despedida de Sílvio Caldas, que nunca existiu de verdade. Ele continuou “cantando em atenção aos pedidos do querido público”.

 

Sílvio Antônio de Figueiredo Caldas (1908-1998), o seresteiro do Brasil fez a sua despedida real em Atibaia (SP), aos 90 anos, no sítio onde morava com a família, devido a problemas pulmonares. Alguém disse que o seresteiro foi sepultado em “Chão de Estrelas”.

 

O inspirado samba carnavalesco de Gervásio Horta e Rômulo Paes conta que “As águas já rolaram/Na rua da  Bahia/Mais do que em três Marias… Bahia, rua do Colosso, do Grande Hotel e dos coronéis, do Elite e dos intelectuais. Na Bahia, o Pep’s, uma super loja popular de departamentos, apresentou a BH, em 1968, o rei da Jovem Guarda - Roberto Carlos com Erasmo Carlos, Wanderléa, Ronnie Von, Jerry Adriani, Vanusa, Sérgio Reis, Martinha - entre outros jovens irreverentes, no lançamento da calça “Calhambeque”, no rastro da explosiva balada jovem que mudou hábitos e costumes. A moçada incendiou o ginásio do Minas Tênis, extrapolando os limites de temperatura, onde “as águas já rolaram mais do que em Três Marias”. Uma brasa, mora!

 

Uma promoção jamais vista na cidade com a inquieta turma da “Jovem Guarda”. O mote da campanha: “Vamos à Pampulha receber o Rei Roberto Carlos” transformou a praça Bagatelle, o aeroporto, a avenida Antônio Carlos e adjacências, que ficaram repletos de fãs e curiosos, para ver o papa do “iê, iê, iê” desfilar. Houve premiação para o calhambeque mais antigo, o mais conservado, o mais bonito, o mais equipado e o mais requintado. A concentração aconteceu nos jardins do parque Municipal onde uma Comissão Especial promoveu o julgamento com a solenidade de entrega dos prêmios, acompanhados por uma multidão.

 

O Rei e sua comitiva se hospedaram no Brasil Palace Hotel, com a praça Sete completamente tomada e os quarteirões fechados ao trânsito de veículos. Roberto Carlos e seus jovens súditos receberam os fãs com algazarra, emoção, choro, abraços, beijos e fotos com dedicatórias. Guardo a lembrança: “Para Marilene (minha noiva!), mil beijocas do Roberto Carlos”. Um evento promocional inesquecível, sacado pelo publicitário paulista Carlito Maia, em parceria com os mineiros Edgard Mello e Hélio Faria, da ASA Publicidade, de BH.

 

Duas jovens cantoras paulistas, Hebe Camargo e Lolita Rodrigues, mais o promissor humorista, ator, cantor, cineasta e empresário Amácio Mazzaropi (1912-1981), estiveram em Belo Horizonte se apresentando nas comemorações de aniversário e inauguração dos novos e possantes transmissores de 10 kilowatts da rádio Guarani AM, com estúdios no prédio antigo do Clube Belo Horizonte e cine Guarani, que hoje abriga o Museu Inimá de Paula. No ano de 1949, foi um acontecimento marcado com a presença ilustre do eminente jornalista e empresário Assis Chateaubriand, dono da emissora da rede Diários e Emissoras Associadas.

 

Chatô hospedou-se no Grande Hotel, a poucos metros da sede da emissora, e dispensou acompanhantes, causando preocupações. Como não apresentou o convite ao ascensorista e recepcionista, foi barrado, impedido de entrar e permaneceu alguns minutos de pé, no saguão de entrada, apesar de enfatizar que era o dono da emissora. Preocupado com a ausência, um diretor saiu à procura do ilustre convidado para dar início à solenidade, quando avistou o ilustre patrão estacionado à entrada. Advertido, o funcionário respondeu, assustado, ter cumprido à risca a orientação recebida do gerente: “Sem convite, nem o dono pode entrar”! Passado o imbróglio que gerou divertidos comentários, o patrão fez questão de elogiar a atitude do humilde e correto funcionário.

 

Hebe Camargo e Mazzaropi criaram laços com a cidade, voltando a fazer shows periódicos em BH, sempre prestigiados. Hebe chegou a comandar um programa semanal na TV Itacolomi, precedente de muitos anos do seu sucesso no SBT. Mazzaropi ficou marcado, para sempre, como um caipira inspirado em “Jeca Tatu”, personagem dos livros do escritor Monteiro Lobato, com presença obrigatória nos inúmeros roteiros de filmes que arrastaram multidões aos cinemas do Brasil, durante muitos anos.

 

Mazzaropi saltou de arenas de circo mambembe para o teatro, rádio, televisão e brilhou intensamente nos telões de cinema, como ator principal, roteirista, produtor, diretor, cineasta, investidor e empresário, dono da PAM Filmes - Produções Amácio Mazzaropi - hoje imortalizada no Museu Mazzaropi (Taubaté-SP) plantado num grande espaço de propriedade da empresa, local que o artista produzia as filmagens de seus longas metragens.

 

No início dos anos 1950, aos 17 anos, muito bem recomendado, fui do escritório da rádio Guarani, na rua Goiás, ao Hotel Macedo, no centro, portando um envelope grande, grampeado, contendo maços de dinheiro e um recibo para fazer o pagamento de cachê ao artista Mazzaropi. Na sala de espera, do apartamento, ele contou o dinheiro, cuidadosamente, agradeceu e mandou recomendações ao pessoal da emissora, “gente atenciosa e muito boa”!..

Já de pé, na porta de saída, fui surpreendido por um elogio seguido de uma pergunta meio intrigante: “Você já está funcionando”?...

 

 

*Hamilton Gangana é publicitário.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

     

 

      

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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