ARTIGO - Antigamente era assim. Agora também, só que diferente
- Cefas Alves Meira
- há 55 minutos
- 5 min de leitura
Hamilton Gangana*

“Não há nada de novo no Reino da Dinamarca”. Certo, mas quem resiste a uma boa novidade? Novo! Lançamento! Nova fórmula! São as irresistíveis tentações que nos levam a comprar alguma coisa que se incorpora ao nosso dia a dia, ainda mais com as facilidades do delivery. Por falar nisso, o delivery é novo? O Google diz que “delivery” (entrega em inglês) é um modelo de serviço no qual produtos, refeições ou mercadorias são levados diretamente ao endereço do consumidor. Consiste de uma venda, solicitada por telefone, site ou aplicativo, garantindo comodidade e rapidez”. Vejamos.
Em 1933, a Drogaria Araujo (1906) começou a fazer entregas de medicamentos, a domicílio, pelo Drogatel 24 horas, nas imediações do centro e em endereços próximos, com os entregadores caminhando a pé. Depois, foram utilizadas bicicletas, que partiam de sua única loja na praça Rio Branco, de frente para a avenida do Comércio (Santos Dumont), um ponto comercial importante. O visionário comerciante Modesto Carvalho de Araujo (Nova Era, MG), criou o Plantão Noturno, na mesma época, e soube valorizar o ponto original, divulgado nos reclames: “De dia ou de noite, siga direto! Drogaria Araujo”. Pioneiro na prestação de serviços, ele soube também valorizar o local, onde tudo começou na Afonso Pena, em BH.
O delivery Araujo prosperou, e o Drogatel Araujo foi lançado ao grande público em 1963 pela TV Itacolomi, no auge de sua audiência, com um comercial inovador. O desenho animado corajoso foi feito pelo criativo ilustrador nissei Noguchi, para a extinta Alfa Publicidade, do publicitário mineiro Carlos Maciel. A peça apresentou também outra boa novidade: a frota própria de fusquinhas amarelos, zero km, exclusivos do Drogatel. Como diz a frase popular: foi a fome com a vontade de comer!
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E num momento oportuno, porque o orgulho tupiniquim estava lá nas grimpas, com a entrega do primeiro fusca 100% nacional, em 18 de novembro de 1959, feita com a presença do presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira (1901-1976) e registrada em carro aberto num auspicioso giro interno pelo chão da fábrica da Volkswagen em São Bernardo do Campo, (SP) - a primeira fora da Alemanha! As imagens do fusquinha brasileiro ganharam o mundo como um feito realmente extraordinário.
Os fusquinhas do Drogatel estampavam o desenho leve de um corpo humano, na porta, que se completava com a cabeça do motorista, ao volante, fazendo lembrar a voz estilizada do comercial na televisão, com o bordão: “Com licença, vou fazer mais uma entrega”! E o final cantado por um coro suave de vozes femininas: Drogatel Araujo 24-5000. Os fusquinhas foram substituídos pela agilidade de uma frota de motos terceirizadas, equipadas com caçambas do Drogatel, para atender o sistema “drugstore”, implantado nos anos 1990.
Artigos de conveniência, cosméticos, produtos de higiene pessoal e para recém nascidos, acessórios, pequenos instrumentos e utilidades do segmento médico, cadeiras de rodas; suplementos alimentares e esportivos, refrigerantes, água mineral, achocolatados, lanches, artigos de época, como panetones e ovos de páscoa; rações e linha de produtos para pets, brinquedos portáteis e lembranças infantis, livros de autoajuda, jornais, flores, pilhas, utilidades e, acreditem, até medicamentos!
Hoje, os pedidos de tele vendas são online, através do Drogatel, site, whatsApp, aplicativos e no peça-e-retire, com a praticidade dos apps e do celular. Bem diferente daqueles tempos do início do Drogatel 24 horas, só para medicamentos e com as dificuldades de comunicação comuns da época. Mesmo assim, estimulou outros corajosos como a Aymoré, que mandou bem com uma campanha com um jingle marcante, interpretado pela voz singela de uma garotinha que canta: - “Alô, alô, quem fala/ É do Armazém do seu José?/A mamãe mandou pedir para mandar/ Uma lata de biscoitos Aymoré!... (aplausos como aprovação). Na época, o telefone transformou-se em novo facilitador de compras.
Nos tempos em que se amarrava cachorro com linguiça, havia o delivery invertido, os “mosquitos que apareciam sem ninguém chamar”- vendedores informais que batiam nas portas das casas, e ofereciam produtos, serviços e todo tipo de negócio: verdureiro, laranjeiro, cortador de lenhas, vendedor de tecidos e cortes de casimira, vendedor de máquinas de costura Singer, a prazo, pelo carnê; vendedor de quadros de santos, já com molduras e o agente do plano de capitalização Prolar, com sorteios mensais. Jovens crentes, de boa aparência, em duplas, com a bíblia sagrada em mãos, pediam licença para uma orientação espiritual e distribuem folhetos educativos em cores.
Vendedores de queijos do Serro, peixes conservados com pedras de gelo, mulheres equilibrando, na cabeça, latas com dobradinha e miúdos de suíno mal cheirosos. A linguiça “da roça” oferecida em bornal preso na bicicleta e o vendedor de pães, na carrocinha, que produzia o sonoro “fom fom” nas portas das casas, e o vendedor de “jabuticabas de Sabará” que aparecia logo nas primeiras chuvas. Ouvia-se o som das batidas numa garrafa, era o sinal do comprador de garrafas vazias. E o som da matraca do vendedor de beijus enroladinhos. Lavadeiras e passadeiras de roupas tinham definido o dia certo do trabalho e o valor do serviço. Moradores de bairros endinheirados, recebiam de manhã o leite, pães e jornal, colocados perto da caixa dos correios. E ninguém pegava.
Um aplicador de injeções causava medo, choradeiras e correrias nas crianças, ao chegar com sua maleta branca com uma cruz vermelha saliente pintada ao centro. A parafernália na mesa, põe fogo no álcool, desinfeta as agulhas e aplica injeções, quase sempre remédios líquidos oleosos, difíceis de penetrar na pele. A parteira, apressada, visitava as mães até a hora de o neném nascer, de um jeito que só Deus sabe. A vizinha prestativa aparecia com o caldo de galinha caipira, que os meninos pediam pra provar!
Alguns pensam que o home office surgiu com a Covid 19, quando algumas empresas adotaram o sistema de trabalho, como grande uma novidade, sem considerar que as donas de casa desde sempre trabalham em casa. Antigamente colocavam-se placas nas portas das casas: aulas de português, reforço de matemática- inglês e francês, cerzideira, costureira, cabeleireira- manicure e pedicure. Marmitas - comida caseira, aulas de violão, aulas de corte e costura, vestidos de noivas; confeiteira de bolos-doces de festa, aulas de pintura, bordado, tricô e crochê, cobrem-se botões. As curiosas: detetive particular-sigilo absoluto. Cartomante - cartas e tarô com hora marcada. Alugam-se quartos para moças e rapazes de boa procedência- Exige-se referência. Quartos para estudantes- chuveiro com água quente.
Advogados, médicos, dentistas, perito contador, professores, instrumentistas, ofereciam seus serviços com placas no jardim ou nas portas da casa e não se preocupavam com doenças graves e contagiosas, consideradas incuráveis, como crupe, tuberculose, sarampo, coqueluche, esquistossomose, sífilis, lepra, meningite, influenza, todas de fácil transmissão. A tecnologia da medicina estava apenas começando e a divulgação restrita era feita através do rádio.
Segundo o IBGE existem hoje cerca de 40 milhões de brasileiros no trabalho informal, sem contrato, sem carteira assinada, sem direitos sociais - dignidade, salários, férias, assistência médica, segurança, fundo de garantia e aposentadoria - o que era muito comum antigamente. Antes, os trabalhadores eram mal qualificados, não recebiam boas instruções, nem tinham escolaridade. Hoje, preparados, em faculdades e cursos técnicos, preferem a liberdade aproveitando incentivos dedicados às microempresas, ou tornar-se empreendedor, livre de regulamentos, chefias, horários rígidos e salários fixos. Atuam livres e soltos, na informalidade e felizes como as andorinhas de verão!
Empresas industriais, comerciais e supermercados em expansão oferecem, mas não conseguem preencher vagas, em diversos setores e modalidades. Hoje é difícil também encontrar empregada doméstica, cozinheira, diarista, babá, bombeiro, eletricista, pedreiro, jardineiro, faxineiro, porteiro, marceneiro, vendedor, ajudante e cuidador de idosos. As ruas estão repletas de motoboys, entregadores de pizzas, comida pronta e badulaques de época, eletrônicos, celulares e fones de ouvido; roupas, calçados, suplementos alimentares, produtos de saúde e beleza - na disparada, correndo riscos de vida.
Investimento temporário em festas e eventos públicos, futebol, datas promocionais, carnaval, juninas e natal são mais atraentes e preferidos. É mudança de hábitos, novos tempos ou reversão da expectativa? O avanço tecnológico estimula o crescimento do desemprego.
Antigamente era assim. Agora também, só que diferente!
*Hamilton Gangana é publicitário




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