ARTIGO - Senhoras e senhores! Está no ar a TV Itacolomi, Canal 4, Belo Horizonte
- Cefas Alves Meira
- 21 de jan.
- 8 min de leitura
Hamilton Gangana*

Fui recebendo, aos poucos, os nomes dos convidados para datilografar os envelopes do convite para a solenidade de inauguração da TV Itacolomi, dia 8 de novembro de 1955, no 23º e 24º andares do histórico edifício Acaiaca, na avenida Afonso Pena, 867, centro de BH. Governador, Prefeito, Presidente da Assembleia, Presidente da Câmara, Reitor da UFMG, Arcebispo Metropolitano, Presidente do Banco da Lavoura de Minas Gerais; presidentes de autarquias, autoridades civis e militares, empresários, líderes sindicais, figuras expressivas da sociedade e inúmeros convidados especiais, um mundão de gente. O assunto dominante, em todas as rodas de conversas, em todos os níveis, era um só: a TV Itacolomi, primeira de Minas Gerais e a terceira do país!
O diretor-superintendente Oswaldo Massote mandou que eu subscrevesse um convite para mim, então tive o privilégio de estar ao lado das autoridades e demais convidados do fundador dos Diários Associados, o magnata Assis Chateaubriand (1892-1968), num acontecimento inédito que mudou o nosso estilo de vida a partir de uma nova expressão que passou a ser utilizada: telespectador. Eu trabalhava no departamento comercial da rádio Guarani, a dona da TV Itacolomi, e estive no jantar comemorativo promovido no salão principal da boate Acaiaca, dos Associados, um espaço preservado numa sobreloja do mesmo edifício Acaiaca.
E lá se vão mais de 70 anos desde que a pioneira TV Itacolomi revolucionou o mercado, mudou hábitos, criou novos costumes e marcou época com uma programação extraordinária, elaborada pela genialidade, talento e competência dos profissionais mineiros. O jornal EM publicou, em novembro e dezembro de 2025, uma série de reportagens com depoimentos de profissionais competentes, que atuaram e contribuíram para o sucesso da tele-emissora, e contaram algumas coisas que pouca gente sabia, sobre os meandros da emissora que exerceu um papel importante no efervescente mercado da comunicação e entretenimento.
Erasmo Ângelo (jornalista e apresentador), Clóvis Prates (ex-ator mirim, diretor de TV e diretor artístico), Hélio Giovanni (jornalista e cinegrafista), Talardo José dos Santos (ex-programador, diretor comercial), Ronan Ramos (repórter e apresentador) e Jackson Neves (jornalista e editor) - todos eles veteranos profissionais e ex-funcionários, gravaram entrevistas, dissertando sobre os 70 anos da Itacolomi, que podem ser vistas livremente no portal uai.com.br.
No meu entendimento, a TV Itacolomi deixou um legado tão evidente, que a série de reportagens publicadas recentemente no jornal EM poderia ser enriquecida com o testemunho de outros profissionais que conheceram de perto a performance da tele-emissora, e cito Rogério Falabella, Dulce Maria, Clausy Soares, Paulo Cabral Júnior, José Maria Vargas, Marco Bianchi e Ricardo Parreiras, todos atuaram na emissora; e Almir Sales, Nestor de Oliveira, Washington Melo, Rodrigo Mineiro, JD Vital, Paulino Ribeiro Júnior, Lauro Diniz, Preta Senra, Daniel Barros entre outros, que conheceram, assistiram e viveram o dia a dia da tele-emissora como profissionais atuantes e conhecedores do mercado da comunicação.
Anunciantes tradicionais como Drogaria Araujo, EPA Supermercados, Elmo Calçados, Carbel Concessionária, Banco Mercantil, Mila Volkswagen, e também telespectadores que tiveram o privilégio de assistir o pioneiro e saudoso Canal 4, e queiram falar a respeito da joia rara dos mineiros, extinta pelo regime autoritário de 1964, em 18 de julho de 1980. Acho também que a ideia seria de bom proveito para conhecimento das escolas e alunos do segmento da área de comunicação, nestes tempos avançados onde desponta a IA. O Museu da Imagem e do Som, da Secretaria de Cultura e Fundação Municipal de Cultura, da Prefeitura de BH mantêm viva a mostra sobre a trajetória vitoriosa da TV Itacolomi, com acervo de fotos, depoimentos, objetos e registros audiovisuais.
O empresário e educador Newton de Paiva Ferreira (1905-1973) foi o primeiro diretor-geral da TV Itacolomi, inaugurada com a presença do presidente da República Juscelino Kubitschek de Oliveira (1901-1976), do governador de Minas, Clóvis Salgado (1906-1978), do prefeito Celso Mello de Azevedo (1915-2004). Cristiano Guimarães foi o padrinho e a madrinha Anna Amélia Faria, ex-esposa do banqueiro Gilberto Faria, dono do Banco da Lavoura de Minas Gerais, entidade financeira que deu cobertura ao grande investimento concretizado pelo idealismo de Assis Chateaubriand, criador dos Diários e Emissoras Associados.
Li o recente e oportuno livro de memórias escrito pelo arquiteto Eduardo Guerra, “Rios, Estados, Índios, Inconfidentes - Minha História de Belo Horizonte”, que, entre outras coisas, descreve a influência que a TV Itacolomi exerceu no comportamento e na vida dos mineiros, desde a infância. O sumário aponta o título “Sempre na liderança” à página 85, e começa citando a transmissão da Santa Missa em Seu Lar, aos domingos, rezada pelo arcebispo dom João de Rezende Costa (Dom Serafim Fernandes de Araújo sucedeu a dom João), lembrando que podia-se também ver o pregador protestante norte-americano Billy Graham - isso já era possível naqueles tempos românticos do século passado!
Como telespectador, o agora cronista fala das opções da programação, toda ao vivo - ainda não era utilizado por aqui o super eficiente vídeo-tape - o que não o impedia de assistir programas de variedades, infantis, telejornais, programas educativos de perguntas e respostas, musicais e teleteatros, feitos por produtores, apresentadores, atores, cantores, comediantes e técnicos, todos formados aqui.
Além das transmissões esportivas e reportagens externas, ele comenta sobre o programa da Jovem Guarda, comandado por Roberto Carlos, nas tardes de domingo, um enorme sucesso, onde foi lançada a moda marca Calhambeque - calças listradas, cintos grossos com fivelas enormes, camisas de gola rolê, etiqueta de metal com desenho do carrinho e a marca. E um sujeito espertinho lançou uma imitação barata chamada Calhambota, nas bandas da rua Caetés. Isso, em meados da década de 1960!
Morador de um apartamento no alto centro da cidade - região nobre das ruas da Bahia, Espírito Santo, Rio de Janeiro, avenidas João Pinheiro, Augusto de Lima, Álvares Cabral, praça Afonso Arinos, entorno da Boa Viagem e da praça da Liberdade -, Eduardo descreve que a meninada de seu tempo se divertia com as séries Rin-tin-tin, Paladino do Oeste, Fliper, Terra de Gigantes, Perdidos no Espaço, Zorro, Havaí 5.0, A Feiticeira, Os Três Patetas, Rota 66, Peter Gunn, Combate, Rei das Selvas, Daniel Boone. Até a legítima brasileira O Vigilante Rodoviário, com o Inspetor Carlos e seu pastor alemão Lobo. Ele conta que era uma tristeza quando a Itacolomi saía do ar, por falta de energia elétrica. Acontecia repetidamente e ainda não existia outra opção na telinha!
O arquiteto escritor lembra até o caminhão cinza de reportagem da Itacolomi com inscrição do indiozinho e logotipo na porta, uma antena no teto e aqueles fios grossos, na transmissão do desfile de Sete de Setembro na Afonso Pena, quando presenciou um fato histórico. Ele viu de perto o todo poderoso Assis Chateaubriand, que só conhecia de vista na televisão e nas revistas. O dono dos Diários Associados estava em uma cadeira de rodas e foi retirado do palanque armado, em frente ao edifício Guimarães, carregado por auxiliares, com a cabeça tombada para um lado. O “velho capitão” envergava o uniforme de oficial da Polícia Militar de Minas Gerais, da qual era um orgulhoso membro honorário. A cena ficou marcada para sempre em sua memória, revela Eduardo Guerra.
E não é nenhum exagero afirmar que a TV Itacolomi se transformou no xodó dos mineiros, com uma fidelidade sobrenatural e um nível de programas tão variado e diversificado, que prendia o telespectador diante da tela horas a fio. Gincanas, Bola na Área, Brasa Quatro, Agarre o que puder, Hebe Camargo, Sérgio Bittencourt, Obrigado; Mineiros Frente a Frente, Roda Gigante, Show Ingleza Levy, Garrafa do Diabo, Programa Flávio Cavalcanti, Jornal Banco Minas, Sabatinas Maizena, Repórter Esso, O Céu é o Limite.
E também Chute em Gol Bemoreira, Boliche Ingleza Levy, Grande Teatro Lourdes, Esta é a sua vida, Repórter Real, Circo Itacolomi, TV Mulher, que inspirou o programa da Globo, e Cada Um com Seu Estilo, que revelou o comediante Zacarias (Mauro Gonçalves (1934-1990), natural de Sete Lagoas, que integrou o divertido grupo de humoristas “Os Trapalhões”.
Os educativos Arte de Comer Bem, Kaleidoscópio e Para onde Vamos; as jornadas esportivas e lutas de boxe, as transmissões externas de comícios, festas juninas e religiosas, eventos de Natal e Ano Novo, cobertura de carnaval, comemorações cívicas oficiais, as eleições e as apurações dos votos, o noticiário político e a cobertura internacional, o escambau! E musicais primorosos com Clara Nunes, Rosana Toledo, Gilberto Santana, Célio Balona,Waldir Silva, Léo Belico, Sílvio Aleixo, Helena Ribeiro e Márcio Greick, entre outros, acompanhados pela orquestra de Leônidas Autuori, pelo piano do mágico Adolfo Maclerevski, ou por grupos regionais formados por músicos de primeira, conforme o script. O Madrigal Renascentista, Coral Júlia Pardini, Ars Nova, Isaac Karabtchevsky, Zilda Lourenço, Murilo Badaró, João Décimo Bréscia, Maria Helena Buzelin, Carlos Alberto Pinto Fonseca, Maria Lúcia Godoy.
“Além da Notícia”, com a informação interpretada, seguida de um comentário, era produzido e apresentado pelo jornalista, publicitário e homem público George Norman Kutova, às 10 horas da noite, com direção de imagens especiais produzidas pelo diretor de TV Clóvis Prates. Quando foi surpreendida pelo facão da ditadura, deixando definitivamente de existir, a TV Itacolomi contava com o jornalista e publicitário José de Oliveira Vaz na direção-geral; Victor Purri Neto, diretor de engenharia; Adauto Machado, diretor-técnico adjunto; Rubens Silveira e Estácio Santiago Ramos, diretores de jornalismo; Clóvis Prates, diretor artístico e de programação; Talardo José dos Santos, diretor comercial; e Hélio Amoni, diretor administrativo-financeiro.
Passados 70 anos, pode-se imaginar como foi árdua a tarefa de selecionar e formar elencos de artistas e profissionais para as mais diversas atividades e manter viva e ininterrupta uma programação diária tão intensa e diversificada .O rádio foi a principal fonte alimentadora, ao fornecer talentos como Wilma Henriques, Ubaldino Guimarães, Levy Freire, Roberto Márcio, Milton Colen, Cleto Filho, Milton Panzi, Fernando Zasso, Kafunga, Jaime Gomide, Vicente Prates, Elias Salomé, Barroca Marinho, Bernardo Grimberg, Ana Lúcia Kattah, Luiz Cordeiro, Antônio Kattah, Zacarias, Léa Delba, Ricardo Parreiras, Antônio Augusto, Cel. Apolinário, Palmira Barbosa, Elzio Costa, José Lino, Ronan Ramos, Dênio Moreira, Rubens Silveira, Dirceu Pereira, Álvaro Alvim, além de músicos, apresentadores, cantores, instrumentistas, produtores, cenaristas E outros, como Carlito Cerezo (Palhaço Moleza), pai de Toninho Cerezo, craque do Galo, da Seleção e que brilhou também na Europa. E ainda Ary Fontenelle, Agnaldo Rabelo, Glória Lopes, Pedro Esteves.
Profissionais como Mário Lúcio Vaz, Hélio Fraga, Vinícius de Carvalho, Rubens Pontes, João Batista Bacalhau, Otávio Cardoso, Gerson Caetano, Carlos Leite, Clausy Soares, Rogério Falabella, Antonio Naddeo, Lázaro Araújo foram crias da televisão, assim como o time de graciosas garotas propaganda como Dulce Maria, Magda Lenard, Maria Pompeia, Maria Elza, Zélia Marinho, Neusa Chaves, Lady Francisco, Esmeralda, Darcy Nelson, entre outros destaques.
Em 1960, fui contratado pela Starlight Propaganda e o teste de admissão foi criar um roteiro para um comercial ao vivo, de 60 segundos, a ser programado na TV Itacolomi e apresentado pela garota-propaganda Dulce Maria. Consegui aprovar um roteiro após cinco ou seis tentativas e o comercial gerou bons resultados, sendo programado e repetido várias vezes.
Coloquei um leitão inteiro, assado, douradinho e montado com cebolas, tomates, azeitonas e farofa no novo freezer maior e mais espaçoso, e mostrei, ao vivo, o diferencial decisivo do novo modelo da geladeira Consul. Por duas vezes, o diretor de criação Huáscar Terra do Valle, perguntou-me se eu tinha assistido o comercial no ar, salientando que era importante assistir, como um aprendizado. Respondi que não havia visto e fui criticado por um aparente desinteresse.
Para evitar uma nova repreensão, assisti o comercial no aparelho instalado na porta de entrada do Café Palhares, na rua Tupinambás, entre diversas outras pessoas. Na verdade, ainda não tínhamos um aparelho de televisão em casa, o que só aconteceu algum tempo depois. A chegada do aparelho instalado na sala da nossa casa, no bairro Pompeia, causou um frenesi e uma série de recomendações, como proteger as vistas, observar certa distância, colocar Bombril na antena e evitar a claridade da janela com um cobertor escuro. A casa ficava repleta de televizinhos, uma festa especialmente para as crianças.
Lembro-me de outro fato curioso acontecido na época. Assistimos à exaustão, dias seguidos, as cenas da emboscada que matou a tiros o ex-presidente dos Estados Unidos, John Kennedy, morto em 23 de novembro de 1963, dentro de um carro aberto, em Dallas, Texas, pelo ex-fuzileiro naval Lee Oswald, exatamente no mês em que chegou o nosso aparelho. Era um Philco pesadão de 12 polegadas, com imagens em preto e branco, o que existia de melhor na época, adquirido em 10 pagamentos, no carnê.
A felicidade chegou à nossa porta com a imagem do indiozinho e a inesquecível vinheta sonora: TV Itacolomi/Sempre na liderança/ Canal 4/Belo Horizonte/Minas Gerais.
*Hamilton Gangana é publicitário. Colaborou Talardo José dos Santos.




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