ARTIGO - Antigamente era assim. Hoje também, só que diferente
- Cefas Alves Meira

- há 1 dia
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Hamilton Gangana*

“Não há nada de novo no Reino da Dinamarca”. Certo, mas quem resiste a uma boa novidade? Novo! Lançamento! Nova fórmula! São as irresistíveis tentações que nos levam a comprar alguma coisa que se incorpora ao nosso dia a dia, ainda mais com as facilidades do delivery.
Por falar nisso, o delivery é novo? O Google diz que “delivery” (entrega em inglês) é um modelo de serviço no qual produtos, refeições ou mercadorias são levados diretamente ao endereço do consumidor. Consiste de uma venda, solicitada por telefone, site ou aplicativo, garantindo comodidade e rapidez. Vejamos.
Em 1933, a Drogaria Araujo (1906) começou a fazer entregas de medicamentos, a domicílio, pelo Drogatel 24 horas, nas imediações do centro e em endereços próximos, com os entregadores caminhando a pé. Depois, foram utilizadas bicicletas, que partiam de sua única loja na praça Rio Branco, ao lado do Mercado Municipal, o hoje respeitado Mercado Central, de frente para a avenida do Comércio (Santos Dumont), um ponto comercial importante. O visionário comerciante Modesto Carvalho de Araujo (Nova Era, MG), criou o Plantão Noturno, na mesma época, e soube valorizar o ponto original, divulgando nos reclames: “De dia e de noite, siga direto! Drogaria Araujo”. Pioneiro na prestação de serviços, ele soube também valorizar o local, onde tudo começou na Afonso Pena.
O delivery Araujo prosperou, e o Drogatel Araujo foi lançado ao grande público em 1963, pela TV Itacolomi, no auge de sua audiência, com um comercial inovador. O desenho animado e corajoso foi do criativo ilustrador nissei Noguchi, para a extinta Alfa Publicidade, do publicitário mineiro Carlos Maciel. A peça apresentou também outra boa novidade: a frota própria de fusquinhas amarelos, zero km, exclusivos do Drogatel. Como diz a frase popular: foi a fome com a vontade de comer!
E num momento oportuno, porque o orgulho tupiniquim estava lá nas grimpas, com a entrega do primeiro fusca 100% nacional, em 18 de novembro de 1959, feita com a presença do presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira e registrada em carro aberto num auspicioso giro interno pelo chão da fábrica da Volkswagen em São Bernardo do Campo, (SP) - a primeira fora da Alemanha! As imagens do fusquinha brasileiro ganharam o mundo como um feito extraordinário.
Os fusquinhas do Drogatel estampavam o desenho leve de um corpo humano, na porta, que se completava com a cabeça do motorista, ao volante, fazendo lembrar a voz estilizada do comercial na televisão, com o bordão: “Com licença, vou fazer mais uma entrega”! E o final cantado por um coro suave de vozes femininas: Drogatel Araujo 24-5000. Os fusquinhas foram substituídos pela agilidade de uma frota de motos terceirizadas, equipadas com caçambas do Drogatel, para atender o sistema drugstore, implantado nos anos 1990.
Artigos de conveniência, cosméticos, produtos de higiene pessoal e para recém nascidos, acessórios, pequenos instrumentos e utilidades do segmento médico, cadeiras de rodas; suplementos alimentares e esportivos, refrigerantes, água mineral, achocolatados, lanches, artigos de época, como panetones e ovos de páscoa; rações e linha de produtos para pets, brinquedos portáteis e lembranças infantis, livros de autoajuda, jornais, flores, pilhas, utilidades e, acreditem, até medicamentos!
Hoje, os pedidos de televendas são online, através do Drogatel: site, whatsapp, aplicativos e no peça e retire, com a praticidade dos apps e do celular. Bem diferente daqueles tempos do início do Drogatel 24 horas, só para medicamentos e com as dificuldades de comunicação comuns da época. Mesmo assim, estimulou outros corajosos como a Aymoré, que mandou bem com a campanha com um jingle marcante, interpretado pela voz singela de uma garotinha que canta: - “Alô, alô, quem fala/ É do Armazém do seu José?/A mamãe mandou pedir para mandar/ Uma lata de biscoitos Aymoré!... (aplausos como aprovação). Na época, o telefone transformou-se em novo facilitador de compras.
Nos tempos em que se amarrava cachorro com linguiça, havia o delivery invertido, os “mosquitos que apareciam sem ninguém chamar”- os vendedores informais que batiam nas portas das casas, e ofereciam produtos, serviços e todo tipo de negócio: verdureiro, laranjeiro, cortador de lenhas, vendedor de tecidos e cortes de casimira, vendedor de máquinas de costura Singer, a prazo, pelo carnê; vendedor de quadros de santos, já com molduras e o agente do plano de capitalização Prolar, com sorteios mensais. Jovens crentes, de boa aparência, em duplas, com a bíblia sagrada em mãos, pediam licença para uma orientação espiritual e distribuem folhetos educativos em cores.
Vendedores de queijos do Serro, peixes conservados com pedras de gelo, mulheres equilibrando, na cabeça, latas com dobradinha e miúdos de suíno malcheirosos. A linguiça “da roça” oferecida em bornal preso na bicicleta; e o vendedor de pães, na carrocinha, que produzia o sonoro “fom fom” nas portas das casas; e o vendedor de “jabuticabas de Sabará” que aparecia logo nas primeiras chuvas. Ouvia-se o som das batidas repetitivas numa garrafa, sinal do comprador de garrafas vazias. E o som da matraca do vendedor de beijus enroladinhos.
Lavadeiras e passadeiras de roupas tinham definido o dia certo do trabalho e o valor do serviço. Moradores de bairros mais endinheirados, recebiam de manhã leite, pães e jornal, colocados perto da caixa dos correios.
Um aplicador de injeções causava medo, choradeiras e correrias nas crianças, ao chegar com sua maleta branca com uma cruz vermelha saliente pintada ao centro. A parafernália na mesa, põe fogo no álcool, desinfeta as agulhas e aplica injeções, quase sempre líquidos oleosos, difíceis de penetrar na pele. A parteira apressada, visitava as mães no período de gravidez, até o neném nascer, de um jeito que só Deus sabe. O choro denuncia a chegada do rebento, e a vizinha traz um generoso caldo de galinha caipira para agradar a mãe e deixa um pouquinho para a meninada provar.
Alguns pensam que o home office surgiu com a Covid 19, quando algumas empresas adotaram o sistema de trabalho, como grande novidade, sem considerar que as donas de casa desde sempre trabalham em casa. Antigamente colocavam-se placas nas portas das casas: aulas de portuguẽs, reforço de matemática- inglês e francês, cerzideira, costureira, cabeleireira, manicure e pedicure. marmitas - comida caseira, aulas de violão, aulas de corte e costura, vestidos de noivas; confeiteira de bolos - doces de festa, aulas de pintura, bordado, tricô e crochê, cobrem-se botões. as curiosas: detetive particular sigilo absoluto. Cartomante - cartas e tarô com hora marcada. Alugam-se quartos para moças e rapazes de boa procedência.
Exige-se referência.
Advogados, médicos, dentistas, perito contador, professores, instrumentistas, ofereciam seus serviços com placas no jardim ou nas portas da casa e não se preocupavam com doenças graves e contagiosas, consideradas incuráveis, como crupe, tuberculose, sarampo, coqueluche, esquistossomose, sífilis, lepra, meningite, influenza (gripe), todas de fácil transmissão. A tecnologia da medicina estava apenas começando e a divulgação restrita era feita pelo rádio.
Segundo o IBGE existem cerca de 40 milhões de brasileiros no trabalho informal, sem contrato, sem carteira assinada, sem direitos sociais - dignidade, salários, férias, assistência médica, segurança, fundo de garantia e aposentadoria - o que era muito comum antigamente. Antes, os trabalhadores eram mal qualificados, não recebiam boas instruções, nem tinham escolaridade. A maioria vinha do interior para melhorar de vida. Hoje, muito melhor preparados, em faculdades e cursos técnicos, preferem a liberdade aproveitando os incentivos dedicados às microempresas, ou tornar-se empreendedor, livre de regulamentos, chefias, horários rígidos e salários fixos. Atuam livres e soltos, na informalidade e felizes como as andorinhas de verão!
Empresas industriais, comerciais e supermercados em expansão oferecem, mas não conseguem preencher vagas, em diversos setores e modalidades. Hoje é difícil também encontrar empregada doméstica, diarista, babá, bombeiro, eletricista, pedreiro, jardineiro, faxineiro, porteiro, mecânico, marceneiro,vendedor, cuidador de idosos. Mas as ruas estão repletas de motos com entregadores de pizzas, comida pronta e badulaques de época, eletrônicos, celulares e fones de ouvido; roupas, calçados, suplementos alimentares, produtos de saúde e beleza.
Investimento temporário em festas e eventos públicos, futebol, datas promocionais, carnaval, juninas e natal são mais atraentes e preferidos. É mudança de hábitos, novos tempos ou reversão da expectativa? O avanço tecnológico estimula o crescimento do desemprego?
Antigamente era assim. Agora também, só que diferente!
*Hamilton Gangana é publicitário




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