ARTIGO - Primeira capital planejada, BH enfrenta grandes desafios há 128 anos. Que feio!
- Cefas Alves Meira

- há 1 dia
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Atualizado: há 18 horas
Hamilton Gangana*

Em meados do século 19, alguém lembrou que passava da hora de ser criada uma nova cidade para sediar a capital de Minas, porque Ouro Preto era muito acidentada, sua topografia desfavorável impedia a expansão com novos prédios, ruas e avenidas, e as condições de higiene eram muito precárias. Virou polêmica. A Proclamação da República, em 1889, rompeu com o passado e acelerou o desejo de modernidade. Ao longo de muitas discussões, a Fazenda do Cercado cresceu, virou Arraial de Curral del-Rei, Arraial de Belo Horizonte, Novo Horizonte e se denominava Cidade de Minas quando foi planejada, mas vingou Belo Horizonte - nome bonito e sonoro, que combina com a paisagem e o clima ameno das montanhas.
Há 128 anos o engenheiro, geógrafo, urbanista e cientista paraense Aarão Reis (1853-1936), presidente da nomeada CCNC - Comissão de Construção da Nova Capital - , após vários adiamentos, entregou uma cidade em obras, alguns prédios oficiais inacabados, falta de água tratada e saneamento básico, falta de moradias e ruas, praças e avenidas públicas, sem pavimentação. Mesmo com os entraves, houve festança nos salões e nas ruas com muita poeira. O volume de problemas desgastou Aarão Reis, que jogou a toalha e foi embora, passando o bastão para o engenheiro de São João del-Rei Francisco de Paula Bicalho (1847-1919), integrante do time de 13 técnicos da Comissão.
As mudanças efetuadas na planta original de BH, provocaram a retirada de Aarão Reis, inconformado com as alterações efetuadas na planta original, a exemplo da importante avenida 17 de dezembro, que divide as áreas urbanas das suburbanas, com quase 12 km de extensão. Uma espécie de anel rodoviário, só inaugurada em 1940, pelo então prefeito Juscelino Kubitschek de Oliveira (1901-1976) com o apelido de avenida do Contorno, e seu trajeto encurtado entre os bairros Bom Jesus, Cidade Jardim e Santo Agostinho, áreas já muito valorizadas e ocupadas, dependentes de indenizações vultosas. O hábil prefeito JK trouxe o presidente do Brasil Getúlio Dorneles Vargas (1882-1954) para presidir a solenidade, ao lado do governador de Minas, Benedito Valadares Ribeiro (1892-1973).
Ficou evidente que BH sofre a síndrome de obras inacabadas desde sempre e que as soluções de improviso prevalecem. Se o criador de BH sofreu pressões e se mandou, ainda na fase de construção da metrópole, o que esperar dos pobres mortais que habitam esta jovem e charmosa capital, com problemas básicos insuportáveis como o trânsito infernal que causa transtornos, prejuízos e atraso de vida, sacrificando a milhares de pessoas, todos os dias. Pior é que não se vislumbra uma solução a curto prazo para o trânsito de BH, que irá aguardar, ainda não se sabe por quanto tempo, o desembaraço do imbróglio do almejado Rodoanel, em fase de planejamento. Sem falar do nosso ridículo metrô, verdadeira aberração. Estamos a pé, no mato e sem cachorro!
Tenho saudades daquela cidade jardim bonita e risonha, do ruído dos bondes chegando e saindo dos abrigos, das árvores acolhedoras em parques, praças e áreas públicas, das calçadas apinhadas de gente caminhando sem medo; dos bilheteiros gritando nas calçadas: Olha a vaca! Olha o galo! É a cobra! Da Mesbla e de lojas chiques e vitrines bonitas, dos camelôs vendendo bugigangas, das ciganas tirando a sorte dos ingênuos e dos camelôs fazendo truques para vender. Dos cinemas Acaiaca, Metrópole, Glória, Brasil e Art-Palácio; do Rei do Sanduíche, dos bares Pólo Norte e Simões, daquele senhor de jaqueta e cabelos brancos balbuciando aos pedestres: “Reeeequeijão e dooooce de leiiiite”! Da simetria das árvores frondosas na Afonso Pena, oferecendo-nos tranquilidade para uma boa prosa.
Tenho saudades da rua da Bahia, das meninas vestidas de azul e branco do Instituto de Educação, dos guardas de trânsito parando os carros para nos proteger de braços abertos; dos meninos engraxates debaixo das árvores na praça Sete com o “Pirulito” coalhado de faixas e cartazes anunciando os eventos, e o Silveira escrevendo a giz, no quadro de vidro escuro, as manchetes do jornal “Estado de Minas”. Do aroma de café vindo do Rocha, Cinédia, Pérola, Café Nice e do sanduíche de pernil da padaria Boschi; do homem solitário pregando a Bíblia, da sirene pedindo passagem para a ambulância apressada e da mulher “Lambreta” correndo atrás dos meninos. Da algazarra dos pardais ao entardecer e as badaladas dos sinos da matriz de São José chamando para a oração da Ave Maria, às 6 horas em ponto.
Dá saudade “do melhor lugar pra gente ir” (samba “Bela Belô”, de Gervásio Horta), onde ficam o Parque Municipal, o teatro Francisco Nunes, os Correios, a Prefeitura e a Cia. Telefônica; o Automóvel Clube, Palácio da Justiça, o Conservatório de Música e o Palácio das Artes; as sedes da todos os bancos, do edifício mais alto, o Acaiaca com a TV Itacolomi no topo, do prédio de 9 andares da casa Guanabara, com uma loja em cada andar; das torres gêmeas Sul América e Sulacap e do pioneiro edifício Guimarães, no passeio do trottoir vespertino nas imediações da Sloper, loja de moda feminina que atraia lindas mulheres, sempre acompanhadas com olhos de lince pela rapaziada afoita. Dá saudade lembrar do “mau humor” de dona Paula, compensado pelo chopp geladíssimo, da salada fria com salsicha quente servidos nas mesas do restaurante Tip Top. Do bar Bico de Lacre, da cantina do Ângelo, do Café Palhares, do restaurante Califórnia, do Toniolo, Rosário, Gruta Metrópole. E também dos fotógrafos de rua, que tiravam nossos retratos sem permissão!
O compositor Gervásio Horta (1937-2025), não escondia o seu encanto por BH, que o inspirou a criar dezenas de composições, como “Sambatério”, que evoca todos os cemitérios da cidade. Fez “Minha rua da Bahia” (“As águas já rolaram na rua da Bahia”...) com Rômulo Paes: “Bela Belô” (“Eu sou do tempo que o Arrudas tinhas peixes”), “Adeus, Lagoinha” (“Estão levando o que resta de mim”...). entre várias outras; fez músicas para o Mercado Central, Barro Preto, Corpo de Bombeiros, para o Atlético, Vila Nova e para o centenário do Cruzeiro. Mas uma composição muito especial do Gervásio, gravada pelo Trio Verdade, é a romântica “Manhãs de Belo Horizonte”, que diz:
“Uma cidade que adormece tão feliz/E que desperta em ambiente de prazer/De um povo grande que trabalha e que não diz/Faz do silêncio o seu modo de viver…Belo Horizonte/São seis horas da manhã/Suas crianças já começam a brincar/Seus operários, suas moças no afã/ Enchem as ruas para o dia começar/Que lindo! /É a manhã quando amanhece em minha terra/Que lindo!/ É ver as nuvens encobrindo toda a serra/Que bonito o luar escondido nos montes/Com os raios de luz quando amanhece o dia/Em Belo Horizonte/Que lindo”!…
Gervásio Horta se encantou ao sofrer um AVC dia 21 de novembro último, e nos deixou sonhando com “Uma cidade que adormece tão feliz”! Que bonito o luar escondido nos montes. Com os raios de luz quando amanhece o dia. Em Belo Horizonte”.
“Que lindo”!..
*Hamilton Gangana é publicitário




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