ARTIGO - 50 anos de “enta” porque a vida começa aos 40!
- Cefas Alves Meira

- 14 de ago.
- 7 min de leitura
Atualizado: 26 de ago.
Hamilton Gangana*

“O passado é a única coisa morta que cheira bem.” Edward Thomas (1878-1917), poeta e ensaísta inglês.
Para a IA - Idade Avançada - um semidoso aparentemente saudável, celebrando 50 anos após os primeiros 40, muito bem vividos,superando os desafios. Nascido em Belo Horizonte, em 16 de agosto de 1935, no bairro Santa Tereza, quarto de quinze filhos do sargento da PMMG Aníbal Gangana (1905-1974) e dona Amasília Guedes Gangana (1910-1972). Com certa frequência, tem provocado uma exclamação de surpresa aos que o indagam pela idade: - “Nem parece”! É que a vida começa aos 40.
Concorda que “Viver é a melhor forma de envelhecer” e diz que velho e criança são muito parecidos, a diferença é vista nos consultórios: um no pediatra, outro no geriatra. De resto, se confundem na alegria e na tristeza. Enquanto a criança é vida, o velho é incômodo. A criança ocupa espaço, o velho perde. A criança é graciosa, o velho ranzinza. A criança é festejada, o velho nem sempre. Um surgindo e o outro definhando. Bananeira que já deu cacho. “Cest la vie”!
Com 60 anos ou mais, o velho é alvo de impiedoso tarifaço que inclui desrespeito, desatenção e ausência de cuidados básicos. A nossa expectativa de vida é de 67.4 anos e vem crescendo, porque a longevidade aumenta. Com 90 anos ou mais, há cerca de 790 mil brasileiros ou 0,37% da população, segundo o censo IBGE 2022. Um ex-presidente, intelectual, em pleno exercício do mandato, teve o desplante de declarar que “os idosos são uns vagabundos aposentados”, insultando seus eleitores e milhares de brasileiros. É a “melhor idade”.
Este nonagenário começou cedo a se virar para levantar uns trocados, como engraxate, entregador de roupas na tinturaria Santa Tereza, de marmitas, em residências e de mantimentos no armazém Toledo. Foi amarrador de lenhas cortadas na lenharia Oliveira, vendedor de laranjas nas ruas, de pães na carrocinha da padaria Seleta e entregador de roupas na lavanderia do Adalberto Vidigal. Para se divertir, fazia carrinhos de rolimã, “tábuas de sebo”, manivelas de soltar pipas, jogava bente-altas e alugava as bicicletas do Corino. Às vezes, pegava o trem subúrbio para passear em Sabará. Sem dinheiro!
Aquele pirralho da “pele do capeta”, pulava a cerca dos quintais de dona Augusta e dona Carmen, na rua Salinas, para roubar mangas, laranjas, pêssegos e goiabas. Aos domingos, o “santo de pau ôco” tinha missa às 5h com a mãe e irmãos,compras na feira-livre com o pai, a tradicional macarronada e o “arranca toco” no campo de terra do quartel do Quinto da PM. E a matinê, se tivesse algum no bolso.
Estatura mediana, 1,75m, 73 quilos, moreno jambo, olhos castanhos, católico apóstólico, atleticano, desde Kafunga, Murilo e Ramos; eleitor ativo há 70 anos. Aos 13, era ascensorista (1948) na rádio Guarani, com autorização carimbada e assinada, na carteira, pelo juiz de menores José Américo de Macedo, porque “É pobre e precisa ajudar a família”. Foi ascensorista, office-boy, rádio-escuta, escriturário e assistente da gerência comercial na emissora. Aposentou-se com a chamada lei “pé na cova”, que permitia a aposentadoria aos 30 anos de contribuição ao Instituto de Previdência, causando surpresa ao atendente do órgão, que pensou tratar-se de um despachante: “Uai, é você”!
Mora no bairro “Ouro Afrodescendente”, apelido politicamente correto do Ouro Preto, região da Pampulha, numa casa que remete à infância: área verde, bichos, pés de manga, jambo, pitanga, jabuticaba, guabiroba, amora, goiaba, ora-pro nobis; o espaço “Galo e Golo”, com fogão à lenha, churrasqueira, quadra e piscininha. O gato Popó, o cachorro Estopinha e o jaboti Lilico fazem parte da trupe. A voz do saudoso papagaio Pandolé, é sempre lembrada com o grito da massa: Gaaaalôôôô!..
Publicitário da reserva, casado com a advogada, musicista, regente e professora emérita de música (UFMG e UEMG) Marilene Gangana, três filhos especiais, avolescente de três netos - Sofia, Isabella e Lucca e nove irmãos vivos, dezenas de colegas e amigos do peito. Hábitos caseiros, anti-nicotina, saúde controlada, bom garfo, gosta de contar piadas, ler e ouvir música, especialmente choro e samba - de uma gelada e de “xixi de anjo”. Usa o “GPS” de controle cardíaco, hipertensão arterial, insuficiência renal, triglicérides, glicose, arritmia, colesterol alto, osteoporose, próstata e sarcopenia, a perda de massa e força muscular. Leva a sério as comorbidades e “fica no pé” das vacinas.
O velocímetro cardíaco atinge 90 km, indicando velocidade moderada e rigor nas revisões, após dois infartos, um stent, dois cânceres, extração de rim e possíveis acidentes domésticos e externos. Procura cumprir a sinalização do “pit stop” com check-up da máquina, regulagem do motor e correções nas bulas. Graças a Deus e às paradas técnicas, já foi salvo duas vezes: um tumor na parede das costas (1958) e outro no rim esquerdo (2017), este extraído no pacote, sem sequelas. Vive, logo existe.
No manual, uso contínuo de 10 medicamentos diários de nomes esquisitos: Selozok, Dprev, Amiodarona, Eliquis, Enalapril, Hidroclorotiazida, Glifage, Rosuvastatina, Indosso e Dutam. O organismo é alimentado por combustível composto de nutrientes essenciais e complementos diversos, três vezes ao dia: café da manhã saudável, almoço variado, lanche à tarde e à noite, com a recomendação expressa de consumir três litros de água por dia para manter o sistema hidratado. Um aguaceiro!
Partidas e chegadas, tempo bom e instável, ventos fortes e tempestades, subidas, descidas e encruzilhadas, retas e curvas; lua nova, lua cheia, céu estrelado, nebulosidades, dias de sol, sujeitos a chuvas e trovoadas. Segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses e anos de convivência, na labuta, com a família e amigos, a alegria de viver em movimento. Seria um ingrato se reclamasse de alguma coisa. Tem mais é que agradecer.
Os primeiros passos no grupo escolar José Bonifácio, em Santa Tereza, foram difíceis. Sentiu-se isolado, triste com os três irmãos mais velhos matriculados no Sandoval de Azevedo (Horto), e, num cochilo da dona Geni escapava pela janela. Perdeu o ano, mas recuperou-se, sendo um aluno aplicado que concluiu o primário em primeiro lugar, com nota 10. Destacou-se nas comemorações do Cinquentenário de Belo Horizonte, dia 12 de dezembro de 1947, entre outros alunos. O bom desempenho serviu de trampolim para a obtenção do primeiro emprego, na rádio Guarani AM - sua universidade, onde atuou por 18 anos e criou intimidade com a comunicação.
A Starlight Propaganda (leia-se Orlando Junqueira e Huáscar Terra do Valle), abriu-lhe as portas para um mundo novo, como criativo de RTV. Assumiu o cargo de assessor da diretoria para assuntos de comunicação e chefe de promoções na empresa líder de varejo no estado, a Ingleza Levy (Embrava), na época de ouro. Contratado pela ASA Publicidade, de Edgard Melo e Hélio Faria, juntou-se a uma competente e premiada equipe de profissionais, para o atendimento de inúmeras contas. Era a formatação feita e acabada da “after six agency”, sonho do imaginário de dois dos maiores publicitários mineiros.
O trabalho desenvolvido para o lançamento e sustentação do Pep’s, primeira super loja popular de departamentos de BH, com mais de 10 mil metros quadrados de área de vendas, na rua da Bahia, foi muito bem desenvolvido. Por dois anos seguidos (1967 e 68), foi distinguida com o prêmio de “Melhor Campanha Nacional de Varejo”, promoção do competente “Jornal do Brasil” (RJ). Inovadoras e corajosas para a época, as campanhas do Pep’s superaram as previsões mais otimistas.
Na festa de entrega dos prêmios, conquistados pela maior agência de Minas, pela segunda vez consecutiva, soou a pergunta curiosa de um destacado profissional, dirigida ao presidente da mesa apuradora, o respeitado jornalista Alberto Dines: - “Quem é essa tal de ASA”? Edgard Melo disparou o gatilho, em alto e bom som: - “É uma agencinha de reclames lá de Belzonti nas Minas Gerais”! (Risos). Com o prêmio principal, por duas vezes seguidas, entregue fora do eixo Rio/SP, o JB decidiu encerrar a premiação. C´est fini.
Tem orgulho profissional de ter participado dos principais movimentos, ações e eventos técnicos que posicionaram Minas Gerais como o terceiro mercado publicitário do país, durante anos. Presidiu a AMP - Associação Mineira de Propaganda e o Sinapro-MG, Sindicato das Agências (cofundador, vice e presidente). Por duas vezes eleito “Publicitário do Ano” em Minas. Durante anos de trabalho, atendeu a contas de vários segmentos, as principais empresas de varejo e lançou outras tantas, com sucesso, na sua agência Hoje Publicidade.
Com o cliente Calçados Francesinha (RS), esteve na Europa, durante 15 dias, em 1983,acompanhado do criativo José Maria Vargas (Hoje), num trabalho de pesquisa de mercado econhecimento das novas tendências da moda, em Roma, Milão, Florença, Paris, Madri eLondres. Para viabilizar a implantação do sistema drugstore (loja de conveniência) naDrogaria Araujo, integrou a equipe de profissionais do cliente no curso técnico de treinamentona Universidade da Flórida, (EUA), durante 12 dias, em 1996.
Sente-se feliz por integrar o grupo social “Veteranos da Amizade”, que reúne cerca de 100 renomados profissionais da comunicação, tendo recebido o diploma de “Formidável do Ano 2023”, em dezembro daquele ano. Agradeceu, afirmando que “a distinção é muito bem vinda”, mas talvez se justifique apenas porque o agraciado está na bica de tornar-se um nonagenário, símbolo de um sem o que fazer, um autêntico “pé na cova”!
“Viver é muito perigoso”, escreveu Guimarães Rosa. Chico Anysio disse “Vivo à la carte, desviando do infarte”. Vinícius de Moraes concluiu que “A vida é uma só”! A vida é bela! Após 89, vêm 90! E 9 é camaleão: 6 deitado e 9 em pé. Juntos, 69 ou 96. Tem 99, 9,99, 99,99, 999,99 … Noves fora, 9x9, prova dos 9, camisa 9, aplicativo 99, 9 de gravidez; 9 de julho, 9 entre 10 estrelas, comigo é 9 ou 90, cheio de 9 horas, 90 anos. É a novena com 9 capítulos para orar e pedir perdão a Deus pelos pecados capitais, que são 7!
O resto é novela.
*Hamilton Gangana é publicitário e nonagenário.




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