Sem Censura suspenso. É a volta da censura?

10 Feb 2019

 

 

O  programa Sem Censura, da TV Brasil - da estatal Empresa Brasileira de Comunicação - foi suspenso. O motivo oficial alegado pelo governo foi uma reestruturação da própria EBC, que prevê uma nova grade de programas estreando em 11 de março.

Mas nos bastidores a motivação é diferente: o programa de entrevistas, exibido ao vivo, daria margem a análises mais contundentes da administração Jair Bolsonaro, o que não recebe o endosso do presidente.

A volta ou não do Sem Censura cabe ao ministro-chefe da Secretaria de Governo, general Carlos Alberto dos Santos Cruz, é o responsável por coordenar a tarefa. Mas é quase certo que ele vai refletir o pensamento de Bolsonaro, seguindo a orientação presidencial e sepultando de vez o programa.

No segundo semestre de 2018, sobretudo na campanha eleitoral, Bolsonaro prometeu extinguir ou privatizar a TV Brasil, ironicamente apelidada de TV do Lula. Quanto ao Sem Censura, parte da equipe é formada por servidores concursados cedidos à TV Brasil por outros órgãos do governo. A ordem, agora, é para que os emprestados retornem às áreas de origem.

DITADURA - A criação do programa, em julho de 1985, tem a ver com a posição do capitão Jair Bolsonaro sobre o programa. Naquele ano o país acabara de sair sair da ditadura militar, com Tancredo Neves se elegendo e não assumindo (faleceu) e o vice José Sarney se tornando o primeiro presidente eleito após o golpe militar.

O jornalista Fernando Barbosa Lima, na época diretor da TV Educativa, resolveu lançar um programa de entrevistas refletindo o ambiente da época. O nome era até um trocadilho: após a mordaça sofrida pela imprensa nas mais de duas décadas da ditadura, finalmente um programa sem censura.

De lá para cá esteve na bancada de entrevistadores um grande time de jornalistas, como Gilsse Campos, Lucia Leme, Elizabeth Camarão, Márcia Peltier, Liliana Rodrigues e Leda Nagle(foto), que ficou um longo período, se constituindo em uma outra logomarca do Sem Censura. Demitida em 2016, foi substituída por Vera Barroso.

A lista de entrevistados é quilométrica: Faustão, Jô Soares, Xuxa, Angélica, Dercy Gonçalves, Paulo Coelho, Leonel Brizola, Maria Bethânia, Cássia Eller, Miguel Falabela, Borjalo, Hebe, Lennie Dale, Ivo Pitanguy, Tom Jobim, Ronaldo Bôscoli,Tim Maia, Nana Caymmi, Bibi Ferreira e Mercedes Sosa, entre outros.

O programa teve também seu lado pitoresco. O ator Pedro Cardoso, o Agostinho, do humorístico A Grande Família, abandonou subitamente o Sem Censura, deixando a entrevistadora sozinha. Era protesto de Cardoso, de tendência pró-esquerda, a favor de grevistas da Empresa Brasileira de Comunicação.

 

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