• Cefas Alves Meira

Shoppings repensando seu modelo de negócio

Atualizado: 27 de mai.


Os centros de compras devem ter mais áreas verdes e ser ainda mais aconchegantes, defende Aurichio

A transformação dos hábitos de consumo da sociedade, acelerada pela pandemia e pelas novas tecnologias, tem levado a indústria de shopping centers a repensar seu modelo de negócio e abordagem arquitetônica.


Os ambientes devem ser abertos, dotados de áreas verdes e integrados às comunidades que o cercam. É uma das críticas que o sócio-diretor do escritório Acia Arquitetos, Fábio Aurichio, faz ao modelo atual de shopping centers do país.


Formado em arquitetura e com oito anos de trabalho em Barcelona, de onde trouxe a experiência da arquitetura catalã em shoppings, Aurichio vem desenvolvendo projetos que procuram dar fim ao que ele chama de “crise de identidade” do segmento.


Em entrevista ao Valor Econômico, o arquiteto explica que os shoppings-centers no Brasil estão se desvencilhando da fórmula antiga, deixando de ser só um local de venda “para oferecer conteúdo e se tornar um polo de atração e retenção de pessoas”, apontando os caminhos para o futuro desses centros comerciais aqui e no e no exterior.


A íntegra da entrevista:


- Qual foi o impacto da pandemia no setor de shopping center?

A pandemia foi o acelerador de um fator que já vinha se desenhando. Foi um choque muito grande para o setor: nunca se imaginou que os shopping centers fechariam as portas! Mas, pouco antes da crise sanitária, já havia uma percepção das empresas do setor de que era preciso repensar e buscar alternativas dentro do próprio negócio. E a indústria de shopping centers do Brasil está se reinventando.


- De que forma isso vem acontecendo?

Quando o shopping center surgiu nos Estados Unidos no formato de uma “caixa refrigerada” com lojas dentro, existia um contexto: as cidades estavam desenvolvendo os subúrbios e era preciso levar o comércio do centro para essas áreas mais distantes. O modelo se propagou, mas está mudando em todo o mundo.


Em São Paulo, por exemplo, os moradores começaram a ocupar a cidade, saindo para caminhar na Avenida Paulista aos domingos e pedalar nas ciclovias, desejando ficar mais tempo ao ar livre, e isso gerou um reflexo no retail de varejo. Já existem projetos que buscam se adequar às novas demandas. Caixa fechada, sem luz natural, “inimiga da rua” e que prejudica o comerciante local é um formato antigo para uma sociedade que está pedindo outra coisa.


E esse choque ainda foi potencializado pela internet, pelo comércio online e pelas redes sociais. Parece que os shopping centers vão acabar, mas o que há é uma crise de identidade e uma demora no tempo de resposta.


- E como é essa crise de identidade?

O shopping center passa a ter nova função para o varejo: deixa de ser espaço de venda para oferecer conteúdo e tornar-se um polo de atração e retenção de pessoas. O “shopping do futuro” não será mais um lugar para vender produtos, mas para proporcionar experiências.


E deve oferecer tudo do que a internet não é capaz: relacionamento humano, convivência física, hábitos e comportamentos que os antigos centros das cidades ofereciam no contexto urbano.


- Que modelo deve ter esse shopping do futuro?

Existem três modelos em desenvolvimento no mundo. O primeiro são os projetos com foco na comunidade local, para atender populações dos bairros, centrados nas necessidades do entorno. É preciso olhar o indivíduo, não a massa. O segundo é um modelo que atua como um hub comercial e logístico para localidades mais distantes, ancorado por entretenimento.


Na Espanha e na Inglaterra, existem vários projetos assim, com lago para pescar e até pista de esqui. Por fim, o formato no meio das cidades, com gestão unificada e segurança. Em Los Angeles, um antigo shopping center fechado foi todo desmontado, perdeu as paredes e ganhou vá-rias entradas, dialogando com o entorno. É o novo papel do urbanismo para esse setor.


- O que acontece com os empreendimentos que já existem?

Eles precisam se adaptar às novas demandas da sociedade. Como modelo de arquitetura, devem investir em espaços abertos, transformando os estacionamentos de superfície em áreas verdes, por exemplo. Oferecer mais entretenimento, como piscina de onda, arena, centro de eventos e cinema de última geração, tudo integrado com o sistema de transporte local.


Em Moema, na Zona Sul de São Paulo, há um shopping que é um exemplo desse descolamento em um dos bairros que mais têm se modernizado na capital paulista. A solução seria abrir aquela “caixa”, conectá-la com o entorno e fazer com que as pessoas tenham desejo de estar ali. O bairro tem vocação para caminhadas, mas não há um ponto de encontro público e aberto dentro dele.


- Mais do que pensar fora da caixa, é preciso desmontar a própria caixa, então?

Sim! Na Europa, cresce o conceito de “antimall”, e isso tem a ver com uma questão geracional. Quando o shopping center nasceu, a primeira geração que teve acesso a ele tinha apenas 10 anos de idade, hoje um senhor ou uma senhora que ainda vai ao shopping. E tem as novas gerações que não gostam do modelo atual de caixa fechada.


Como agradar todas essas gerações? O “antimall” surge para isso: é um centro de consumo com as lojas todas ao redor de uma praça ao ar livre, onde o grande valor é a convivência entre as pessoas.


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