• Cefas Alves Meira

Jornal do Brasil, 130 anos, vai a leilão dia 6. Dívidas


Por sua valente linha editorial, o diário carioca foi censurado e perseguido durante a ditadura militar

“Quem dá mais? Depois de completar em abril 130 anos de circulação, o veterano Jornal do Brasil, que conviveu com épocas áureas, e ultimamente momentos de penúria, vai a leilão judicial.


A triste notícia é dada pelo empresário Omar “Catito” Peres, atual proprietário do jornal, fundado em 1891 pelo jornalista e político Rodolfo Dantas, editado pelo imortal Rui Barbosa. O JB chegou a ter entre seus donos personalidades como o conde Pereira Carneiro; sua mulher Maurina Pereira Carneiro, a “Condessa”; a família Nascimento Brito; e mais recente, antes de “Catito” Peres, o empresário Nelson Tanure.


O leilão acontecerá daqui a 15 dias (6 de agosto), com lance mínimo de R$ 3,5 milhões, e quem arrematar o diário carioca ganha o direito de passar a editar o jornal.


Primeiro digital

Em 2010, passando por séria crise financeira, o Jornal do Brasil se tornou 100% digital, sendo o primeiro veículo impresso brasileiro a ter suas páginas apenas na internet.


“Catito” revela que o jornal, passando por sérias necessidades, agravadas na pandemia, teve de se mudar do centro do Rio para uma sede mais humilde. Mas nega que tenha sido despejado.

“Como várias outras empresas, também começamos a trabalhar em home-office. Não fazia sentido manter um custo de R$ 40 mil por mês de aluguel. Mudamos para um lugar menor e a operação não sofreu em absolutamente nada”, afirmou o empresário.

Histórico


O jornalista Bruno Brasil, em artigo publicado em 2015 no site da Biblioteca Nacional Digital, traça um extenso perfil do JB, desde sua fundação.


Discorrendo sobre o jornal, de origem monarquista, Bruno conta, entre outros fatos históricos, que “o golpe militar de 31 de março de 1964 foi aceito com reservas pelo Jornal do Brasil. Em um segundo momento, o periódico apoiou o nome de Humberto de Alencar Castelo Branco para a presidência da República, favorável aos planos de seu governo para a área econômica. Depois, se mostrou contrário à candidatura do general Arthur da Costa e Silva, repudiando com veemência o Ato Institucional nº 5 (AI-5) – que, entre outras restrições, instituía a censura prévia à imprensa”.


O jornalista lembra também que um dia depois da decretação do AI-5, o Jornal do Brasil publicava uma primeira página antológica, que traduzia implicitamente o sentimento da imprensa. Na margem superior esquerda, diz Bruno Brasil, na seção sobre o clima, constava esta previsão: “Tempo negro. Temperatura sufocante. O ar está irrespirável. O país está sendo varrido por fortes ventos”. Ao lado, outro destaque, com um registro irônico: “Ontem foi o Dia dos Cegos”. Um drible na ditadura, que instalou censores dentro de todas as redações de jornais, rádios e TVs do País..


Pouco depois da publicação do AI-5, recorda o jornalista em seu artigo, Sette Câmara, um dos diretores do periódico, foi preso por ter ligações com Juscelino Kubitschek, sendo substituído por Otto Lara Rezende. “Durante o período de censura, as críticas do JB procuravam voltar-se para o governo, não para o regime militar”, observa Bruno. Veio a gestão Emílio Garrastazu Médici, e o jornal voltou a aplaudir o governo, tomando para si os projetos de desenvolvimento e de consolidação da grandeza nacional para si, sobretudo no plano da política econômica do ministro da Fazenda Antônio Delfim Neto.


“Ainda que a linha editorial do Jornal do Brasil exercesse apoio ao regime militar, as colunas assinadas por Alceu de Amoroso Lima (com o pseudônimo de Tristão de Athayde) e por Carlos Castello Branco veiculavam críticas à ditadura, mesmo durante os períodos de maior repressão e censura”, frisa Bruno Brasil. Mais história. Sérios atritos entre o JB e as autoridades vieram a aparecer no início da gestão de Ernesto Geisel, em 1974. O Brasil já estava sob o clima da reabertura política, defendida pelo jornal. Devido a essas posições, no ano de 1976 um relatório confidencial intitulado “Medidas contra o Jornal do Brasil”, montado pelo general Hugo Abreu, chefe do Gabinete Militar da Presidência da República, delineava estratégias para sufocar o diário.


Foi intensificada a investigação fiscal na empresa e em seus diretores; pressões contra anunciantes; liquidação sumária dos débitos do JB com entidades públicas; apreensão de edições, e outras ações persecutórias. Como consequência, o Jornal do Brasil sofreu, na época, um forte boicote econômico, tendo ainda concessões para canais de rádio e televisão negadas, vendo-se obrigado a comprá-las caso quisesse expandir sua rede multimídia.

Com a confirmação de Luís Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores, como sucessor de FHC no Planalto, nos editoriais do dia 28 de outubro de 2002 o JB argumentava que a maré de boa vontade em torno do novo presidente deveria ser aproveitada pelo governo petista em formação, mas que não deveria se prolongar em comemorações. Bruno explica que, segundo o jornal, Lula recebia o país com a economia “em condições razoáveis” e suas principais obrigações eram as reformas política, tributária, da Previdência e da legislação trabalhista.


“Na ocasião, o JB ainda julgava o momento político propício para o PSDB definir um novo padrão oposicionista, diferente do estilo intransigente com que o PT se opôs ao governo Fernando Henrique”, enfatiza Bruno Brasil no site da Biblioteca Nacional Digital.

Vieram os oito anos de governo Lula, seis de Dilma, um ano e meio de Temer, e agora Bolsonaro. As dívidas trabalhistas e junto aos fornecedores só crescendo, levando o Jornal do Brasil à bancarrota.


É esse vetusto vespertino, depositário de 130 anos da política, economia e cultura do País, que será vendido no próximo dia 6 de agosto por algumas patacas, como diria Machado.



26 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo