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  • Foto do escritorHamilton Gangana

ARTIGO - Há 30 anos Januário arneiro nos deixava 

Atualizado: 15 de mai.



A avenida Afonso Pena era toda verdinha, por cima, com as frondosas árvores de troncos parrudos, plantadas em fila dupla, desde a inauguração de Belo Horizonte em 1897. Naquelas árvores, irritantes pardais faziam seus ninhos, soltavam cocô em nossas cabeças e nos tetos dos enormes carros de aluguel estacionados, aguardando chamadas. Ali, produziam uma algazarra diária ao entardecer - isso até 1963, quando as árvores, os pardais, e também os piolhos apelidados “Amintinhas” foram extintos, pelo afiado machado do indócil prefeito Jorge Carone Filho - o que “realiza mais”.

 

Nessa mesma época ouvia-se por aqui o som melódico transmitido pela PRC 7 Rádio Mineira, a vovozinha de Minas (1935); PRH 6 Rádio Guarani, a emissora das grandes realizações (1936), - as duas pertencentes à rede de emissoras dos Associados - e uma terceira, a potente emissora oficial do governo do Estado, que transpunha as nossas montanhas e alcançava o Brasil, através as ondas “média, longas e curtas”, da PRI 3, Rádio Inconfidência, o gigante do ar (1937).

 

Ao longo da área central e nos dois abrigos de bondes, na avenida, ouvia-se a Rádio City, na verdade um serviço de alto-falantes que prestava serviços de utilidade pública, anunciava ofertas das lojas de varejo e avisos de interesse imediato da população. A rádio City era alvo dos rapazes que se consideravam ser portadores de voz bonita e revelou, realmente, algumas excelentes como as de Roberto Márcio, Getúlio Milton, Maurílio Grilo, Murilo Lana, Chico Dolabella e Marcus Duraẽs, este contratado para atuar no programa Ceśar de Alencar, nas tardes de sábado, no auditório da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, a maior emissora do país.

 

Mas só em 1952, portanto 15 anos após a inauguração da Inconfidência, aconteceu algo de novo no ar: a chegada de uma pequenina emissora, procedente de Nova Lima, com antenas transmissoras instaladas no topo da serra do Curral, local depois utilizado por várias torres de telefonia. A Itatiaia era a antiga rádio Aurilândia, adquirida pelo radialista Januário Carneiro (1928/1994) e trazida para Belo Horizonte, com sede instalada em 4 salas, no edifício Timboí, na rua Rio de Janeiro.

 

Januário sonhou e viveu rádio desde menino, um apaixonado que produzia transmissores de brincadeira, como hobby, em casa, no bairro da Serra, com as antenas rústicas colocadas no alto de galhos de árvores e mandava o irmão até a esquina para verificar se o som estava chegando. Interessante é que as três emissoras existentes, apresentavam programação bem parecida, com programas no auditório, cantores, rádio-teatro, orquestras, noticiário e transmissões esportivas.

 

E a Itatiaia já nasceu com a sua linha de atuação bem definida, e o slogan: Rádio Itatiaia - de noticiário e reportagem. Com a rádio Itatiaia, aconteceu algo semelhante aos testes dos tempos do menino: a emissora era tão fraquinha, que ganhou logo um slogan, dos inimigos gratuitos: “Itatiaia, falando para o centro e cochichando para os bairros”.

 

Tive o privilégio de ver a Itatiaia nascer, ao conviver com seu fundador, o redator, produtor, locutor, narrador esportivo e apresentador de programas da rádio Guarani, então funcionando no terceiro piso do prédio do atual Museu Inimá de Paula, na rua da Bahia, com Guajajaras.

 

Januário, aos 20 anos, participava da roda de torcedores que discutiam e falavam sobre futebol, ao vivo, no programa “Clube do Lero-Lero”, às 6 horas da noite. No América, lançou um jornalzinho esportivo, com notícias do Coelho, e foi também redator esportivo no matutino “O Diário”, da igreja Católica, além de ser correspondente local da rádio Continental, do Rio de Janeiro, especializada em esportes, que anunciava: “Rádio Continental, a que está em todas”.

 

Aos 13 anos de idade, comecei a trabalhar na Guarani, meu primeiro emprego (ascensorista), e lembro-me bem quando Januário deixou a emissora, em 1950, com a ideia fixa de criar a sua própria emissora, sendo tachado de “menino maluco”, um sonhador. Januário descia com alguns colegas, para tomar café, no restaurante-bar que existia na sobreloja do prédio e, na volta, costumava trazer um agrado para mim: um pão com manteiga.

 

Dia 8 de maio de 2024 completaram-se 30 anos que Januário Carneiro nos deixou, com um impressionante legado como o profissional incansável que criou e conduziu a rádio Itatiaia, a Rádio de Minas - uma das três maiores emissoras do país, há 72 anos.

 

Como publicitário, tive oportunidade de acompanhar a trajetória da Itatiaia, lutando contra tudo e contra todos, assumindo todos os riscos, sendo pioneira em coberturas nacionais e internacionais, lançando ideias novas e consideradas impossíveis, mas acreditando sempre na resposta dos ouvintes, seu alvo principal.

 

Certa época, nos anos 1970, a Itatiaia tentou um grande salto, ao adquirir o jornal “Diário de Minas” e a TV Vila Rica, criando a sigla “Força Nova de Comunicação”, que não foi adiante, devido às enormes dificuldades financeiras, sem contar com financiamento de terceiros e apoio dos políticos mineiros.

 

Emanuel Carneiro, irmão caçula de Januário, atuou na emissora desde os 13 anos de idade, passando por todos os setores, e assumiu a presidência da empresa, em 1994, demonstrando um talento que pode ser considerado hereditário, com aprendizado desde os testes de som nas árvores, nos tempos de menino.

 

Com a permanente evolução, a Itatiaia esteve sempre à frente, em equipamentos técnicos de última geração e na formação de equipes com profissionais da maior competência, deixando de ser apenas transmissora, mas uma fonte criadora de notícias, utilizando todas as plataformas e canais de som e imagens, via satélite. A Itatiaia tem potência de 100 kW, é constituída por 5 emissoras geradoras - BH, Juiz de Fora, Montes Claros, Ouro Preto e Varginha e mais de 80 afiliadas, que cobrem todo o Estado. Desde 2022, segundo o “Top of Mind”, a Itatiaia é líder absoluta na categoria “Liderança”, conta com 7 milhões de ouvintes, sendo considerado o canal mais ouvido do Brasil.

 

A credibilidade da Itatiaia e sua intimidade com os problemas dos cidadãos é tão grande, que é considerada um patrimônio, uma entidade que faz parte do dia a dia das pessoas e das comunidades mais próximas. Grande parte dos ouvintes de hoje, são seguidores dos hábitos dos pais, da fidelidade à Itatiaia.

 

Em 2021, a Itatiaia foi adquirida pelo competente empresário, banqueiro e empreendedor mineiro Rubens Menin, criador e dirigente do grupo empresarial MRV, com atividades diversas em vários ramos de negócios, e com foco principal na construção civil, no Brasil e no exterior. Criador de frases antológicas, Januário Carneiro de onde estiver, estará ouvindo, assistindo e vibrando com o sucesso da pequenina e desacreditada emissora que criou e diria para os incrédulos de antes e aos ouvintes, seguidores fieis de hoje: “Itatiaia, falando para o Mundo e cochichando para o universo”.

 

                                          (*) Hamilton Gangana é publicitário

 

 

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