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ARTIGO - Memórias do Tri. "Noventa milhões em ação. Pra frente Brasil, Salve a seleção!" 

  • Foto do escritor: Cefas Alves Meira
    Cefas Alves Meira
  • 25 de jun.
  • 6 min de leitura

                                               Hamilton Gangana*

 


O Brasil deixou o mundo boquiaberto ao sagrar-se tricampeão do mundo, em 1970, no México, com uma seleção brilhante, perfeita e invicta. Havia um craque talentoso, um legítimo campeão do mundo em cada posição, com muita raça.

 

Foi a primeira seleção a vencer todos os seis jogos que disputou, marcou dezenove gols, sofreu apenas sete e encantou o planeta praticando o futebol arte. Pelé consolidou-se como o maior jogador de futebol do mundo e Zagallo foi o primeiro campeão mundial como jogador e treinador.

 

Noventa milhões de vozes embalaram a melhor seleção da história, ao som do hino de exaltação que diz “Noventa milhões em ação/Pra frente Brasil/Salve a seleção/De repente é aquela corrente pra frente/Parece que todo o Brasil deu a mão/ Todos ligados na mesma emoção…”

 

Sob os olhares do sisudo ditador general Emílio Garrastazu Médici, fanático declarado por futebol, que deu a isca com a frase “Pra frente Brasil”, quando assumiu o poder. Eufórico, o mandatário ordenou a convocação do centroavante atleticano Dario e provocou a queda do mais ferrenho opositor do regime autoritário, o comunista, jornalista e competente técnico João Saldanha, que já tinha, na ponta da língua, os 11 craques, os quais qualificou de “feras do Saldanha”, ao convocar e escalar os titulares. O impulsivo gaúcho não costumava levar desaforo pra casa, tanto que jogou a toalha e limpou a grama que fez brilhar a estrela de Zagallo, que assumiu o comando, manteve o esquema e tornou-se tricampeão mundial. Mário Jorge Lobo Zagallo (Alagoas-1931-2024), apelidado “Formiguinha”, um exemplo de desempenho em campo, foi ponta-esquerda na época de ouro do glorioso Botafogo do RJ, que tinha os monstros sagrados Garrincha, Didi e Nilton Santos.

 

Foi treinador do clube e de vários outros, e o único futebolista a participar de quatro Copas do Mundo, com reconhecimento oficial da Fifa. O contagiante “Pra frente Brasil”, criado pelo imaginário do consagrado compositor carioca Miguel Gustavo, em 1970, foi de uma felicidade e competência fora do comum - a música, o arranjo melódico e os versos cujas palavras soam leve e grudam na mente.

 

A composição quebrou o gelo seco da ditadura, o povo sambou livre e solto, formando um mar com imensidão de ondas amarelo-ouro e verde-esperança, empurrando as amarras políticas para as areias. Miguel Gustavo Werneck Martins, (RJ-1922-1972), jornalista, compositor, radialista, publicitário, poeta e considerado o maior jinglista, autor de “Pra frente, Brasil”, merece ser reverenciado por sua alta sensibilidade, já demonstrada em composições musicais e participação em várias campanhas publicitárias de sucesso.

 

O Brasil é reconhecido como país essencialmente musical. O rádio difunde nossa riquíssima e apreciada música nativa - samba, choro, MPB (evolução da bossa nova), hinos, enredos carnavalescos, toada sertaneja, frevo, baião, baladas, forró, axé, pagode e o funk.

 

Grandes eventos estimulam a criação de músicas temáticas, a exemplo de comemorações cívicas, folclóricas e religiosas, jogos de futebol, as campanhas políticas, desfiles carnavalescos, os festivais e outras celebrações que entraram para a história. O futebol e o rádio, nossas duas maiores paixões, criaram o maior movimento popular que se tem notícia, embalado pelo hino “Pra Frente Brasil”, consagrando a inesquecível conquista brasileira no México, em 1970.

 

Está provado que onde tem emoção, tem música! Cada esquadrão que se preze tem seu hino, o torcedor sabe e canta de memória - canta e chora, antes, durante e depois dos jogos, ganhando ou perdendo. Com a seleção brasileira em campo, este sentimento de brasilidade se multiplica e salta à flor da pele como um vírus letal.

 

Na propaganda, a música também é fundamental. Nosso primeiro anúncio musical foi criado por Antônio Gabriel Nássara para uma padaria, em 1932, no Programa Ademar Casé da rádio Philips, RJ. O sambista Luíz Barbosa fez e gravou: “Oh padeiro desta rua/Tenha sempre na lembrança/Não me traga outro pão/Que não seja o pão Bragança”. O povo gostou, cantou e consumiu ainda mais o pão Bragança.

 

O primeiro comercial cantado na televisão foi feito também na TV Tupi do Rio, a vinheta do mascote, o indiozinho que anunciava, às nove horas da noite, em ponto, o encerramento da exibição de filmes infantis. Os direitos foram adquiridos pela Cobertores Paraíba e utilizado, durante várias décadas, num comercial antológico com desenho animado: “Tá na hora de dormir/Não espere mamãe mandar/Um bom sono pra você/E um alegre despertar…Outro grande sucesso mais recente, muito apreciado: “Hoje é um novo dia/De um novo tempo/Hoje a festa é sua/Hoje a festa é nossa (Marcos Valle”).

 

Jingles de qualidade são facilmente memorizados: “Se sua casa tem baratas, não vou lá, peço licença pra mandar… Melhoral, Melhoral é melhor… Phimatosan, para você crescer… Coca Cola, Coca Cola, oi, pra mim também…Pílulas de Vida do dr. Ross… Alka Seltzer existe apenas um … Alô, alô, quem fala… é do Armazém do seu José?… Passa, passa, o Talco Ross…Só Esso dá a seu carro o máximo… Você pode confiar na Shell… Existe tanta coisa/Que quer nos modificar/Só tem amor quem tem amor pra dar…Pepsi (Sá e Guarabira, 1972)) Um, dois, um dois…um dois, Regulador Xavier… Dois minutos, duas gotas, dois olhos claros e bonitos…Quem bebe Grapette repete…Alô, alô, quem bate? É o frio…Não adianta bater, as casas Pernambucanas… O tempo passa/ O tempo voa/ E a Poupança Bamerindus continua numa boa!. Se a criança acordou… Dorme, dorme, menina/Mamaẽ tem Auris-Sedina! (voz de Dircinha Batista”.

 

Um jingle eleitoral consagrou a volta democrática de Getúlio Vargas ao poder, em 1951, e virou sucesso no carnaval: “Bota o retrato do velho outra vez/Bota no mesmo lugar”... (voz de Chico Alves). A campanha presidencial (1960) da dupla Jânio (Quadros) e João (Goulart) acertou em cheio com um jingle admirável: “Na hora de votar eu vou jangar/eu vou jangar/Vou votar em Jango Goulart…(lançou o verbo jangar), cantado com estilo malandro do cantor Jorge Veiga). Em 1955, Miguel Gustavo produziu para o achocolatado Toddy um jingle sincopado primoroso: “Quem sabe, sabe/Conhece bem/Por isso Toddy/Prova que tem. O jingle caiu nas graças da meninada. O compositor Joel de Almeida aproveitou a dica e criou a marcha de carnaval cantada até hoje: “Quem sabe, sabe/ Conhece bem/ Como é gostoso/Gostar de alguém”...

 

O jingle da campanha presidencial de Lula, (1989), puxou muitos votos: “Lula lá”... “Lula lá/Brilha nossa estrela/Lula lá”…De Hilton Acioli, cantado em coro por cantores famosos. Marcaram época por aqui: “O Abdalla é fogo na roupa…Levanta Maria, levanta Manoel, vamos comprar louça…Como é gostoso comprar no PEP’s… TV Itacolomi, sempre na liderança…Lá vem o batalhão do apetite…Um, dois, feijão com arroz, um dois. Arroz Paranaíba”.

 

As vinhetas com assinaturas sonoras de Perfumaria Lourdes, Ingleza Levy, Guanabara, Ducal, entre outros, ficaram na memória. Uma fanfarra, lembrando cornetas, anunciou, durante anos, o “Repórter Esso” e a vinheta com efeitos rítmicos instrumentais sinalizavaq a abertura do “Fantástico” (Guto Graça Mello).

 

Talk shows, jornadas esportivas, novelas, jornais falados, programas jornalísticos, policiais e sertanejos, os infantis e seriados, apresentam acordes musicais bem característicos, são como identificação biométrica. Pode ser um sinal eletrônico, um assovio diferente, uma trilha especial, um hit do velho oeste ou um grito da torcida saudando um golaço! Ou os ruídos de um tiroteio com balas voando pra todo lado!

 

Ninguém ensaiou, mas todos cantam, afinadinhos: “Nós somos do Clube Atlético Mineiro”...”Existe um grande clube na cidade”... “Salve o Corinthians”...Uma vez Flamengo, Flamengo até morrer.

 

Do mestre Pixinguinha e letra do versátil compositor Braguinha, a melhor música do Sećulo XX, foi escolhida pelo pelo público, via internet, é um verdadeiro hino popular: “Meu coração/Bate feliz/Quando te vê”...

 

Veiculada durante décadas, na época de natal, quando os corações ficam mais sensíveis e abertos a manifestações de amor e felicidade, a mensagem criada nos anos 1970, pelo expert Boni, ex-diretor da Globo, jamais será esquecida. O jingle “Estrela brasileira” transformou-se num ícone da propaganda e várias gerações cantam e continuam cantando, em coro, na escola, em casa, nas festas infantis ou sozinhos: “Estrela brasileira no céu azul/Iluminando de norte a sul/Mensagens de amor e de paz/Nasceu Jesus chegou o Natal/Papai Noel voando à jato pelo céu trazendo um Natal de felicidade/E um Ano Novo cheio de prosperidade/ Varig, Varig, Varig...”

 

A única seleção pentacampeã do mundo merece ser premiada com um novo hino de guerra, louvor e gratidão. Ainda há tempo. Se acontecer a felicidade da conquista do sonhado hexa, o cacique Carlo Ancelotti, líder inconteste e maior nome do grupo, poderá inspirar a criação de um samba épico. O Maracanã mostrou, no último amistoso da seleção - 6 x 2 no Panamá - com mais de 70 milhões de torcedores trajando o amarelão da Copa, que já inundou o país. Só falta escalar o som vibrante do hino do Hexa, no banco há 24 anos!

 

                                   *Hamilton Gangana é publicitário

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